Reflexão

A diferença entre ouvir e concordar

Há um momento em muitas conversas em que alguém diz algo com que discordamos. Temos dois instintos. O primeiro é argumentar. O segundo é concordar com a cabeça, manter a paz, evitar o conflito.

Os dois são formas de não ouvir. O primeiro se recusa a ouvir. O segundo finge ouvir, mas abandona a posição. Ouvir de verdade é uma terceira coisa — mais difícil que as duas.

O que ouvir não é

Ouvir não é silêncio. Você pode ficar quieto e não estar ouvindo nada. Pode estar planejando a resposta, esperando a vez, decidindo se deve se ofender.

Ouvir também não é concordar. Concordar é uma conclusão. Ouvir é um processo. Você pode ouvir alguém com atenção e ainda discordar no fim. Isso não é falha do ouvir. É o ouvir funcionando.

O que ouvir é

Ouvir é a disposição de deixar as palavras do outro mudarem algo em você — mesmo que a mudança seja só uma compreensão melhor de por que ele pensa o que pensa.

Ouvir é fazer a pergunta que ajuda o outro a dizer o que ele de fato quer dizer, não a pergunta que ajuda você a vencer. Ouvir é estar disposto a estar errado, e estar disposto a ficar na conversa mesmo quando não está.

Ouvir não é o mesmo que se render. É o mesmo que respeitar.

Por que confundimos os dois

Confundimos ouvir com concordar porque, em muitas salas, os dois são tratados como a mesma coisa. Se você não concorda, é visto como quem não ouviu. Se ouviu bem, esperam que tenha mudado de ideia.

Isso é injusto, e também é uma armadilha. Empurra as pessoas para a concordância silenciosa (para provar que ouviram) ou para a discordância barulhenta (para provar que não se renderam). Nenhuma das duas produz conversa de verdade.

Três coisas que mudaram

Três coisas mudaram para mim quando comecei a separar os dois.

Primeiro, parei de precisar ganhar. Percebi que a maior parte das minhas discussões não era sobre encontrar a verdade. Era sobre estar certo. Quando parei de precisar estar certo, consegui ouvir o outro com mais clareza. Às vezes ele estava certo. Às vezes eu estava. Às vezes os dois estávamos parcialmente certos, e esse era o resultado mais útil de todos.

Segundo, comecei a fazer perguntas melhores. Em vez de preparar o contra-argumento enquanto o outro falava, comecei a fazer perguntas que me ajudavam a entender o que ele de fato queria dizer. Não como posso refutar isso, mas por que você vê assim. A segunda pergunta é mais lenta. Também é a que produz compreensão.

Terceiro, aceitei que posso sair de uma conversa sem mudar e ainda assim ter ouvido bem. Por anos, achei que uma boa conversa tinha que terminar com alguém mudando de ideia. Hoje acho que uma boa conversa pode terminar com os dois se entendendo melhor, e ainda discordando. Isso não é fracasso. É o ponto.

O respeito da discordância

A discordância, feita bem, é uma forma de respeito. Diz: eu te levo a sério o suficiente para te dizer o que de fato penso, não só o que seria mais fácil dizer.

A pessoa que concorda com tudo não está sendo gentil. Está sendo ausente. A pessoa que discute com tudo não está sendo honesta. Está sendo defensiva. A pessoa que ouve e depois discorda — com calma, com clareza, sem desprezo — está fazendo a coisa mais difícil e melhor.

Uma pequena prática

Na próxima vez que você discordar de alguém, tente isto: antes de responder, repita a posição do outro com as suas palavras. Se ele disser sim, é isso que eu quis dizer, você ouviu. Se ele disser não, não foi isso, você ainda não ouviu — e se poupou de discutir contra algo que ele não disse.

Essa prática não vai te fazer concordar mais. Vai te fazer discordar melhor.

Ainda estou aprendendo isso. Alguns dias ouço bem. Alguns dias discuto bem. Nos melhores dias, faço os dois — e a pessoa do outro lado sai da conversa se sentindo respeitada, mesmo quando ainda discordamos.