Quando Deus parece estar em silêncio
Há estações em que Deus parece estar em silêncio. Não ausente — em silêncio. Você ora, e nada volta. Você lê a Bíblia, e as palavras ficam na página. Você procura um sinal, e o céu continua o mesmo tom de cinza.
Já estive nessas estações. Não são dramáticas. São quietas, e isso é parte do que as torna difíceis. Uma crise barulhenta pelo menos dá algo para enfrentar. Um silêncio quieto não dá nada para segurar.
O que o silêncio não é
O silêncio não é prova de que Deus foi embora. Não é prova de que você fez algo errado. Não é castigo, e não é um teste que você está falhando.
O silêncio também não é nada. É um tipo de presença que não se anuncia. O salmista diz: "A minha alma espera somente em Deus" (Salmo 62:5). Esperar em silêncio, nesse versículo, não é a ausência de Deus. É uma postura diante dele.
Tive que desaprender a ideia de que silêncio significa ausência. Nas relações humanas, silêncio muitas vezes significa distância. Na relação de Deus conosco, o silêncio muitas vezes significa outra coisa — um convite mais fundo, um trabalho mais lento, uma confiança que não depende de confirmação constante.
O que o silêncio faz
O silêncio tira as coisas que a gente estava usando para ouvir Deus. A emoção alta. O sinal claro. O versículo que parecia saltar da página. Quando essas coisas vão embora, fica a pergunta mais difícil: a gente ainda confia, quando não há nada para sentir?
O silêncio também expõe o que a gente estava realmente buscando. Às vezes a gente buscava Deus. Às vezes a gente buscava certeza. O silêncio ajuda a distinguir.
Busquei certeza mais vezes do que gostaria de admitir. Queria um sinal, um versículo, uma palavra clara. Não porque amasse menos a Deus, mas porque amava mais o controle. O silêncio gentilmente tirou o controle, e deixou a relação.
O que fazer enquanto espera
Não há fórmula para encerrar uma estação silenciosa. Mas há práticas que ajudam a ficar na sala enquanto ela dura.
Continue orando, mesmo quando parece vazio. A oração não precisa ser eloquente. Pode ser uma frase. Pode ser um nome. Pode ser o próprio silêncio. O ponto não é produzir um sentimento. O ponto é ficar na conversa.
Continue lendo, mesmo quando nada se destaca. A Bíblia não é um livro mágico que sempre produz uma faísca. Às vezes é um livro quieto que faz companhia. O versículo que não faz nada hoje pode ser o versículo que te segura daqui a três meses.
Continue aparecendo. Igreja, grupo pequeno, um amigo que conhece sua história. O silêncio é mais pesado sozinho. Você não precisa que as pessoas expliquem. Precisa que elas estejam presentes enquanto você espera.
Escreva. Uma entrada no diário, um áudio, uma nota no celular. Não para resolver o silêncio, mas para lembrar dele. Um dia você vai olhar para trás e ver o que não conseguia ver de dentro.
Um salmo que ajuda
O Salmo 88 é um dos poucos salmos que não se resolve. Começa na escuridão e termina na escuridão. "Ó Senhor, Deus da minha salvação, dia e noite clamo diante de ti" (Salmo 88:1). E perto do fim: "Afastaste de mim os meus amigos e os meus companheiros; as trevas são a minha companhia" (Salmo 88:18).
O salmo não termina com uma resolução feliz. Termina com o silêncio ainda intacto. E mesmo assim está na Bíblia. É uma oração que foi preservada, não corrigida. Dá permissão para orar o silêncio sem fingir que ele é outra coisa.
Já orei o Salmo 88 mais de uma vez. Não resolveu o silêncio. Tornou o silêncio suportável, porque tornou o silêncio honesto.
O que eu diria a alguém começando
Se você está começando a caminhar por uma estação silenciosa, eu diria três coisas.
Primeiro, não confunda silêncio com ausência. As pessoas que caminham com Deus há mais tempo costumam falar de longos silêncios. Não falam deles como fracasso. Falam deles como parte do caminho.
Segundo, mantenha as práticas comuns. Ore, leia, apareça. Não porque elas garantem um resultado, mas porque mantêm você na sala onde o resultado pode chegar.
Terceiro, conte para alguém. O silêncio é mais pesado sozinho. Um amigo, um pastor, um grupo pequeno — alguém que possa segurar o silêncio com você. Você não precisa que essa pessoa explique. Precisa que ela esteja presente enquanto você espera.
O que o silêncio me ensinou
O silêncio me ensinou que fé não é sentimento. Se fosse, iria e viria com o tempo. Fé é direção. É a decisão de continuar olhando para Deus, mesmo quando o céu está cinza.
Também me ensinou que Deus não tem pressa. O silêncio não é atraso. É um tipo de paciência que não entendo por completo, mas aprendi a receber.
Ainda esperando
Ainda estou em alguns silêncios. Não tenho resolução para eles. Tenho uma direção. Continuo olhando para o mesmo lado. Continuo aparecendo. Continuo dizendo as mesmas orações, às vezes com o mesmo vazio.
E descobri que o silêncio nem sempre é vazio. Às vezes, embaixo dele, há uma presença que não fala em palavras. Não é a resposta que eu pedi. É algo mais baixo. É suficiente para o dia.